Temporama

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Despertar

 Seward Johnson - WikiMedia Commons


Quem somos? Qual o significado da vida?

Comecei com esse clichê barato para dizer que não tenho mais pretensão ou sequer vontade de tentar responder a estas questões milenares. Não que me sinta incapaz de fazê-lo, e sim porque, para mim, já não é mais necessário. Sou daqueles que, ao invés de acharem que as grandes questões da existência permanecem sem resposta, acreditam que a resposta provavelmente já tenha sido dada e que, talvez, ela não seja tão edificante e nem tenha tanto sentido quanto desejamos.

"Imperador, tua espada não vai te ajudar
Aqui, coroa e cetro são inúteis
Tomei-te pela mão
E hoje, dançarás comigo"

(Anon.: Vierzeiliger oberdeutscher Totentanz, Heidelberger Blockbuch,
aprox. 1460, em tradução livre.)


Toda existência humana tem um fim. Não interessa quem somos ou quanto poder tenhamos, terminaremos todos, rico ou pobre, poderoso ou pé-rapado, de forma muito semelhante. Até lá, viveremos uma frágil, tênue, efêmera realidade. Pode ser desconfortável encarar, mas somos todos iguais,  meros grãos de areia em uma praia vasta, quase nada. Quem foi que disse que a realidade deve necessariamente ser como desejamos?

Uma das pouquíssimas vantagens de se ficar mais velho é poder contar com a experiência que, necessariamente, se acumula. Nunca fui de deixar a vida "passar batida" sem tentar compreender as coisas. Desde que me dou por gente sou inclinado a uma certa filosofia, e com o tempo chegou um momento em que me vi obrigado a repensar toda a minha vida. Não com base em crenças momentâneas, opiniões alheias e valores temporais, mas sim em anos de observação, reflexão e (auto)análise. Até agora não consigo entender direito como e quando se deu este processo. Percebi que todos os elementos, indícios e também conclusões apontavam, de forma contundente e quase que assustadora, para uma mesma direção. Em minha cabeça criei um furacão, e depois acabei sendo levado por ele. Então, (felizmente!) decidi -- ou melhor, fui forçado a -- seguir o caminho que, talvez por acaso, talvez não, escancarou-se à minha frente.

Não parece mais haver volta: mesmo relativamente jovem, fui tomado por um desejo irrefreável, quase desesperado, de, no mais amplo sentido, aproveitar a vida enquanto ainda é possível. Encarar da melhor forma os maus momentos (e, claro, tentar superá-los o quanto antes), e capturar, como a uma flecha no ar, aqueles possíveis bons momentos que se oferecem a todo instante e que tantas vezes dispensamos, como quem já os tem em abundância, como se fosse possível haver bons momentos em demasia, como se as oportunidades fossem acontecer para sempre!

Uma oportunidade adiada é uma oportunidade perdida, deixada de lado, numa falsa, tola e arrogante certeza de que ela se oferecerá novamente no futuro.

O futuro é agora.

Dizem que há um pote de ouro esperando por nós no fim do arco-íris. Eu pretendo encontrar o meu. Para isso, é preciso continuar caminhando sempre. A vida é, basicamente, uma sucessão de momentos medíocres permeados por ocasionais momentos ruins e também momentos bons. Sob pena de não atingirmos a riqueza que nos aguarda, cabe a nós desempenhar nosso papel para maximizar a frequência e a experiência destes últimos.

A vida é uma só, e não sabemos o que nos aguarda na próxima esquina. Somos levados por ela, mas, ainda que de forma limitada, também podemos conduzi-la. Podemos optar por deixar que os anos escorram por entre nossas mãos, ou podemos agarrá-los e espremer cada minuto para extrair o máximo que for possível.

De qualquer forma, tudo passará num estalar de dedos.


 
Wikipedia Affiliate Button