Temporama

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Atraso



Conheço gente suficientemente atrasada para considerar que, por ser ateísta, uma pessoa não tem princípios morais ou valores bem formados. Qualquer um que lance um olhar sobre a humanidade - seja ontem, seja hoje - constatará que a razão, decididamente, não é o seu forte. Uma pena o ser humano tratar com tanto desprezo justamente aquilo que o diferencia de uma alcachofra. 95% das pessoas vivem suas vidas de forma plena sem sequer aprender a questionar, a pensar, a procurar a base por trás de alegações feitas por pessoas tão falíveis quanto eu ou você. No entanto, em geral são felizes assim.

Como dizia o poeta inglês Thomas Gray: "where ignorance is bliss, 'Tiss folly to be wise" (em tradução livre: "Quando a ignorância é felicidade, é loucura ser sábio"). Discordo deste conceito. Prefiro ser uma pessoa informada e não tão feliz assim a ser uma pessoa alienada e feliz. Como contraponto, cito uma frase (de difícil tradução do inglês) do genial evolucionista Richard Dawkins, que diz: "Somos todos ateus em relação à maioria dos deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós vão um deus a mais" ("We are all atheists about most of the gods humanity has ever believed in. Some of us just go one god further").

"No sexto dia, deus criou o homem. No sétimo dia, o homem retribuiu o favor" (origem desconhecida)

Há uma multitude de deidades nas quais o Homem acreditou ao longo dos milênios. Deidades idolatradas por pessoas como eu ou como você, e com uma intensidade tão grande -- ou maior -- quanto a que hoje se idolatra o deus do cristianismo. Se você não acredita ou acha até pitoresco ou engraçado acreditar em Belenos, Gaia, Odin, Diana, Marte, Vênus, Ísis, Anúbis, Ra, Ishtar, Mithra, Quetzalcoatl e tantos outros, não há razão alguma para acreditar no "Deus". E NÃO, eles não são a mesma entidade. Isto é um artifício barato frequentemente utilizado (normalmente por ignorância) pelos religiosos. Mas os deuses criados pelo homem são diferentes entre si, e muitas vezes antagônicos.

Se, no entanto, a crença em algo cuja existência é tão difícil de constatar quanto a de fadas, duendes e marcianos faz bem a alguém, qual o sentido de contestar? Talvez Thomas Gray tenha razão, afinal de contas. Talvez seja loucura ser sábio.



 
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