Temporama

quinta-feira, 13 de abril de 2006

A Santa Sexta

Lembro-me que, por volta dos meus 5 anos de idade, uma de minhas brincadeiras favoritas era, quando passeava de carro, disputar uma corrida com os outros motoristas. Meu pai ia ao volante (na verdade, sem sequer saber que disputava uma corrida), e eu ia no banco traseiro, participando daquela sensacional competição imaginária. Funcionava assim: quando meu pai, em meio ao trânsito, ultrapassava outro motorista, eu vibrava. Algumas vezes, chegava até a narrar cheio de empolgação e entusiasmo a “audaciosa” ultrapassagem. Mas quando, por qualquer razão, algum motorista ultrapassava o carro de meu pai, ele era “desclassificado”. Na verdade, era como se ele nunca tivesse existido, como se a ultrapassagem não tivesse ocorrido. Não tinha a menor graça ver meu pai ficando para trás, não valia. Era uma corrida por vezes disputadíssima, mas no final, de uma maneira ou de outra, eu sempre vencia.

Lembrei dessa engraçada história porque amanhã é Sexta-Feira Santa, e a maneira pela qual fui ensinado a evitar a carne nesse dia se parece bastante com a corrida imaginária que disputava quando garoto.

Tendo sido criado em meio a ensinamentos católicos, sempre fui ensinado a não comer carne vermelha na Sexta-Feira Santa. Cresci com esse hábito. Nunca ninguém se preocupou em me explicar exatamente o por que desse costume, não sei se por falta de necessidade ou de conhecimento. Tudo o que eu sabia era que a Sexta-Feira Santa era um dia religioso muito importante, que tinha a ver com Jesus, e que nesse dia não podíamos comer carne. Na verdade, isso não é muito menos do que sei hoje. Mas o fato é que o jovem Beto, como tantas outras pessoas, partilhava desse costume.

Certo dia, estávamos eu, meu pai, minha mãe e meu irmão jantando em um restaurante. O jantar transcorria como de costume quando notei que meu pai retorcia o rosto. “Caramba, hoje é Sexta-Feira Santa” disse ele. Demorei um pouco para perceber o que estava acontecendo, mas logo entendi: no prato dele, que já estava pela metade, havia carne. Naquele momento o mundo desabou sobre mim. “Meu deus, seremos punidos!” pensei, e imediatamente fiz a pergunta à minha mãe. “Não, meu filho”, respondeu ela, “se comermos por esquecimento, não tem problema”.

Não sei de onde minha mãe tirou aquela regra que por diversas vezes salvou meu pai e muitos outros, mas isso me lembra a incrível corrida imaginária da minha infância. Era rigorosamente, terminantemente proibido comer carne naquele dia, mas se você se esquecesse, e se fartasse de carne até não agüentar mais, não havia problema algum! Era como se a proibição só valesse pra quem se lembrasse de cumpri-la. Aqueles que lembravam-se durante todo aquele dia de que não poderiam comer carne faziam algum esforço, e comiam um peixe ou uma salada. Já para os relapsos ou os que tinham memória fraca, a Sexta-Feira Santa reservava fartos almoços, muitas vezes em churrascarias “inexplicavelmente” vazias e com atendimento personalizado.

Nem é preciso dizer que, entre o Preceito da Religião e o Preceito da Mãe, fiquei com o segundo. Muitas vezes me esquecia (genuinamente) da Sexta-Feira Santa e comia à vontade. Se depois eu me lembrasse, estava perdoado por deus. Quando, por outro lado, eu me lembrava que naquele dia eu não poderia comer carne (logo eu, que não como peixe e só como frango se não houver outra opção), ficava chateado. Afinal, eu havia me lembrado, e agora teria de respeitar. A não ser, claro, que eu tivesse a luz divina de, dali a alguns minutos, esquecer da proibição e aí poder comer à vontade, com todo o inesgotável perdão de Jesus.

Bem, foram tantas as vezes em que me esqueci e acabei indo parar em uma churrascaria ou degustando um delicioso hambúrguer que, depois de alguns anos, passei a não dar mais bola pro assunto. Na verdade, hoje considero quase que uma obrigação ir a uma churrascaria na Santa Sexta. Quem já foi a uma churrascaria imensa, com meia dúzia de mesas ocupadas, num ambiente mais tranqüilo que museu, com todos aqueles garçons e toda aquela carne, sempre bem quentinha, sempre no ponto desejado (já que ela vem praticamente da cozinha direto para a sua mesa), sabe o que estou falando. Não há, no ano, dia melhor para se ir ao Porcão. Sem contar, claro, que é engraçado comer carne num dia em que muitas pessoas, por religião e muitas vezes sem sequer saber por que, evitam. Estaria mentindo se negasse que há também uma pontinha de provocação a quem, ignorando as razões e fugindo ao bom senso, acaba por privar-se de momentos prazerosos.

É por isso que amanhã, Jesus permitindo, estaremos eu, Flávia e Betinho, mais uma vez, desfrutando aquela incrível capinha de picanha e aquela deliciosa costela, num ambiente calmo e acolhedor, que só a Santa Sexta é capaz de proporcionar.

Jesus que me perdoe.


 
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