Temporama

sexta-feira, 3 de março de 2006

Brasileiro Ilustre

Seguindo a tradição de longa data em nosso país, uma vez mais execramos a pessoa errada e jogamos confete em quem deveria ser criticado. Juscelino Kubitscheck era, no máximo, um brasileiro bem-intencionado que assumiu a presidência. Daí em diante, só fez lambança. Sob os pretextos de levar o desenvolvimento para o interior e afastar a capital do litoral -- para o caso de guerras --, construiu Brasília. Ninguém fala do endividamento desenfreado e do caos em que nossa economia mergulhou e em que permaneceu por décadas. Ninguém fala que o interior do país continua sub-sub-subdesenvolvido. O argumento de afastar a capital do litoral chega a ser estapafúrdio se lembrarmos de cidades muito mais importantes que a nossa antiga capital, e que também encontram-se, em variados graus, próximas ao litoral: Nova York, Tóquio, Londres e Paris, para mencionar apenas algumas poucas que me vieram imediatamente à cabeça.

Juscelino era um megalomaníaco quase patológico. Instalou no país as montadoras de automóveis, que até o governo Collor só fabricavam carroças. JK selou por décadas nossa total falta de acesso aos carros americanos, japoneses e europeus, todos eles muito melhores que as charretes motorizadas que somos obrigados a usar até hoje. Quase todos concordam em condenar o chamado "modelo desenvolvimentista", mas quase todos fazem questão de jogar serpentinas em JK. Ninguém se preocupa com a evidente incoerência.

Já Carlos Lacerda, coitado, esse quase nunca é lembrado. Pouco importa que muitas de suas idéias tenham perdurado até os dias atuais. Fernando Henrique Cardoso, então, nem se fala. Seus dois governos foram responsáveis pela recuperação econômica do país, e proporcionaram aos pobres a maior conquista com a qual poderiam sonhar: o controle da inflação. No entanto, não tenho nenhuma esperança de ver, um dia, homenagens e minisséries dedicadas a estes dois.

JK, assim como Getúlio Vargas, ganhou a admiração eterna dos brasileiros. Não vejo a hora de colocarmos nesse rol personalidades de quilate comparável, como Lula e Anthony Garotinho.


 
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