Temporama

sexta-feira, 3 de março de 2006

As Prostitutas que me Desculpem

Estamos sendo bombardeados por apelos televisivos do deputado Michel Temer pregando a adoção, pelo seu partido, o PMDB, de candidatura própria à presidência da república. Diz que o PMDB fará o governo que "mudará o Brasil".

O PMDB é hoje o partido mais prostituído da esfera política brasileira. Nos últimos vinte anos, o PMDB foi "governo" por dezoito. Era governo na época de FHC, é (incrível!) governo na era Lula. Como, então, pode julgar-se capaz de conduzir o governo que vai mudar o país? Deputado Michel Temer, pare de subestimar a inteligência de seus eleitores. Pensando bem, esqueça o que eu disse. Pode subestimar sim, porque esta estratégia já se mostrou eficaz incontáveis vezes na história do país.

Atualmente, se tiver de escolher entre votar no PT ou no PMDB, me mudo para o Chile.

Patrocinar para que?

Imprensa que se diz séria tem obrigação de esclarecer. É comum nossa imprensa decidir que facetas de uma notícia divulgar. Nossa imprensa também adora contaminar-se com um patriotismo infantil, que só serve, quando muito, para aumentar no cidadão aquele sentimento tolo de que o povo brasileiro é mais inteligente e capacitado do que os outros. Aqui no Temporama, o internauta já sabe: os fatos aparecem do jeito que realmente são, mesmo que não sejam do nosso agrado.

Pois bem, vamos esclarecer alguns fatos (que, admito, em nada alteram nossas vidas) a respeito da Volvo Ocean Race, uma regata com várias etapas cujo objetivo é concluir uma volta ao mundo. Como a imprensa vem divulgando, o barco Brasil I realmente está em quinto lugar. Esclareço apenas que a competição conta somente com sete barcos, portanto o barco brasileiro está em antepenúltimo lugar. Já o barco líder, no entanto, não é o "Holanda I", como divulgou a imprensa. Fico até constrangido ao dizer que, na verdade, não existe nenhum barco com esse nome na competição. O nome do barco líder é ABN AMRO One. Ponto. Não importa que o nome do barco seja o mesmo do patrocinador. Estamos carecas de ver isso no vôlei, no automobilismo, e em tantas outras categorias esportivas. Se a imprensa pode mencionar o time da Supergasbrás e a equipe da Medley, deve também divulgar o nome correto do barco ABN AMRO One, sob pena de pôr em cheque parte de sua credibilidade.

Brasileiro Ilustre

Seguindo a tradição de longa data em nosso país, uma vez mais execramos a pessoa errada e jogamos confete em quem deveria ser criticado. Juscelino Kubitscheck era, no máximo, um brasileiro bem-intencionado que assumiu a presidência. Daí em diante, só fez lambança. Sob os pretextos de levar o desenvolvimento para o interior e afastar a capital do litoral -- para o caso de guerras --, construiu Brasília. Ninguém fala do endividamento desenfreado e do caos em que nossa economia mergulhou e em que permaneceu por décadas. Ninguém fala que o interior do país continua sub-sub-subdesenvolvido. O argumento de afastar a capital do litoral chega a ser estapafúrdio se lembrarmos de cidades muito mais importantes que a nossa antiga capital, e que também encontram-se, em variados graus, próximas ao litoral: Nova York, Tóquio, Londres e Paris, para mencionar apenas algumas poucas que me vieram imediatamente à cabeça.

Juscelino era um megalomaníaco quase patológico. Instalou no país as montadoras de automóveis, que até o governo Collor só fabricavam carroças. JK selou por décadas nossa total falta de acesso aos carros americanos, japoneses e europeus, todos eles muito melhores que as charretes motorizadas que somos obrigados a usar até hoje. Quase todos concordam em condenar o chamado "modelo desenvolvimentista", mas quase todos fazem questão de jogar serpentinas em JK. Ninguém se preocupa com a evidente incoerência.

Já Carlos Lacerda, coitado, esse quase nunca é lembrado. Pouco importa que muitas de suas idéias tenham perdurado até os dias atuais. Fernando Henrique Cardoso, então, nem se fala. Seus dois governos foram responsáveis pela recuperação econômica do país, e proporcionaram aos pobres a maior conquista com a qual poderiam sonhar: o controle da inflação. No entanto, não tenho nenhuma esperança de ver, um dia, homenagens e minisséries dedicadas a estes dois.

JK, assim como Getúlio Vargas, ganhou a admiração eterna dos brasileiros. Não vejo a hora de colocarmos nesse rol personalidades de quilate comparável, como Lula e Anthony Garotinho.


 
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