Desistir, Jamais
Dona Gertrudes é uma senhora de classe média-baixa que vive no subúrbio de uma grande cidade brasileira. Levando uma vida esforçada, ela sustenta, sozinha, seus seis filhos. Para isso, conta com a minguada remuneração que ganha vendendo cosméticos de segunda categoria para as suas amigas e conhecidas. Dona Gertrudes, no entanto, não reclama: ela sabe que a vida poderia ser pior.
Dona Gertrudes ainda encontra tempo para comparecer aos eventos promovidos pelas Jovens Senhoras Unidas para o Auxílio dos Necessitados, grupo assistencial ao qual pertence. O grupo inteiro se reúne a cada ano na casa de um dos membros para confraternizar e comemorar mais um ano em atividade. Naquele ano, Dona Gertrudes decidira que a festa seria em sua casa. Outras senhoras do grupo haviam oferecido suas residências, algumas delas verdadeiras mansões com vários empregados e grandes jardins. Ainda assim, naquele ano Dona Gertrudes não arredava pé. "Minha casa é simples, mas vai ser divertido!" dizia Dona Gertrudes às amigas. Dona Gertrudes tanto quis que conseguiu. Foi escolhida para sediar o evento daquele ano.
Pela tradição, o evento é patrocinado pela dona da casa onde ele acontece, e Dona Gertrudes sabia disso. Ela havia feito e refeito todas as contas e todos os planos, e concluiu que, com algum esforço, teria todo o dinheiro suficiente para bancar a reunião.
Os meses foram passando, e antes que Dona Gertrudes se desse conta a semana do evento havia chegado. Certo dia, ela pegou todo o dinheiro que havia poupado e foi ao supermercado fazer as compras para o grande evento.
Quando estava passando as compras pelo caixa, Dona Gertrudes viu que o dinheiro que ela havia guardado com tanto esforço não chegava a ser suficiente para pagar sequer a metade do valor das compras.
Dona Gertrudes não sabia o que fazer. A festa estava agendada, e os convidados já estavam se preparando. Não havia mais tempo de desistir e transferir a festa para a casa de outra pessoa do grupo. Dona Gertrudes caiu em desespero.
Contei essa triste história para realizar uma analogia com a candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Panamericanos. O Comitê Olímpico Brasileiro, na figura de seu presidente -- praticamente já um monarca -- Carlos Arthur Nuzman, fez todas as contas. Junto com a prefeitura, o COB concluiu que, com esforço, conseguiria quase a totalidade dos recursos para os jogos. A prefeitura daria uma parte, o governo do estado daria outra parte, o governo federal daria a sua e a iniciativa privada idem. A planilha de custos e recursos do evento foi devidamente demonstrada para o comitê que escolheu a cidade-sede.
Nesta semana, no entanto, o presidente-monarca do COB foi à câmara dos vereadores explicar que, infelizmente, os cálculos estavam errados. Faltando apenas dois anos para o evento, e com a maioria das obras ainda por iniciar, a nova previsão orçamentária é nada mais, nada menos que o dobro (sim, o dobro) da inicial. Para piorar, estão "aparecendo" canos da CEDAE e outras coisas mais em locais que deveriam ser preparados para os jogos. Ainda não se sabe de onde virá a verba complementar para os jogos, mas o fato é que Carlos Arthur Nuzman disse que é "natural" ocorrerem coisas desse tipo.
Sim, é natural. Aqui no Brasil, conconcordo, é natural. Mais que isso: é de se esperar. E pensar que o Rio quer sediar uma Olimpíada!
A verdade é que nem o Rio nem qualquer outra cidade brasileira tem condições de se candidatar a sediar os Jogos Panamericanos. Na esfera esportiva internacional podemos, no máximo, sediar copas de natação ou campeonatos de handebol. Qualquer coisa muito além disso nos faz passar o papel ridículo que estamos passando. O brasileiro é assim mesmo: não tem competência para sequer manter suas crianças longe das ruas, mas acha que pode sediar grandes competições internacionais. Afinal somos brasileiros, e brasileiro, como se diz, não desiste nunca. Vamos fazer os mais capengas Jogos Panamericanos da história, e depois vamos querer fazer Olimpíada.
É isso aí, Brasil. O Pan é nosso. Agora só faltam a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O presidente-monarca do nosso Comitê Olímpico, Carlos Arthur Nuzman, mostra que é um homem sensato, competente e responsável.
Dona Gertrudes ainda encontra tempo para comparecer aos eventos promovidos pelas Jovens Senhoras Unidas para o Auxílio dos Necessitados, grupo assistencial ao qual pertence. O grupo inteiro se reúne a cada ano na casa de um dos membros para confraternizar e comemorar mais um ano em atividade. Naquele ano, Dona Gertrudes decidira que a festa seria em sua casa. Outras senhoras do grupo haviam oferecido suas residências, algumas delas verdadeiras mansões com vários empregados e grandes jardins. Ainda assim, naquele ano Dona Gertrudes não arredava pé. "Minha casa é simples, mas vai ser divertido!" dizia Dona Gertrudes às amigas. Dona Gertrudes tanto quis que conseguiu. Foi escolhida para sediar o evento daquele ano.
Pela tradição, o evento é patrocinado pela dona da casa onde ele acontece, e Dona Gertrudes sabia disso. Ela havia feito e refeito todas as contas e todos os planos, e concluiu que, com algum esforço, teria todo o dinheiro suficiente para bancar a reunião.
Os meses foram passando, e antes que Dona Gertrudes se desse conta a semana do evento havia chegado. Certo dia, ela pegou todo o dinheiro que havia poupado e foi ao supermercado fazer as compras para o grande evento.
Quando estava passando as compras pelo caixa, Dona Gertrudes viu que o dinheiro que ela havia guardado com tanto esforço não chegava a ser suficiente para pagar sequer a metade do valor das compras.
Dona Gertrudes não sabia o que fazer. A festa estava agendada, e os convidados já estavam se preparando. Não havia mais tempo de desistir e transferir a festa para a casa de outra pessoa do grupo. Dona Gertrudes caiu em desespero.
Contei essa triste história para realizar uma analogia com a candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Panamericanos. O Comitê Olímpico Brasileiro, na figura de seu presidente -- praticamente já um monarca -- Carlos Arthur Nuzman, fez todas as contas. Junto com a prefeitura, o COB concluiu que, com esforço, conseguiria quase a totalidade dos recursos para os jogos. A prefeitura daria uma parte, o governo do estado daria outra parte, o governo federal daria a sua e a iniciativa privada idem. A planilha de custos e recursos do evento foi devidamente demonstrada para o comitê que escolheu a cidade-sede.
Nesta semana, no entanto, o presidente-monarca do COB foi à câmara dos vereadores explicar que, infelizmente, os cálculos estavam errados. Faltando apenas dois anos para o evento, e com a maioria das obras ainda por iniciar, a nova previsão orçamentária é nada mais, nada menos que o dobro (sim, o dobro) da inicial. Para piorar, estão "aparecendo" canos da CEDAE e outras coisas mais em locais que deveriam ser preparados para os jogos. Ainda não se sabe de onde virá a verba complementar para os jogos, mas o fato é que Carlos Arthur Nuzman disse que é "natural" ocorrerem coisas desse tipo.
Sim, é natural. Aqui no Brasil, conconcordo, é natural. Mais que isso: é de se esperar. E pensar que o Rio quer sediar uma Olimpíada!
A verdade é que nem o Rio nem qualquer outra cidade brasileira tem condições de se candidatar a sediar os Jogos Panamericanos. Na esfera esportiva internacional podemos, no máximo, sediar copas de natação ou campeonatos de handebol. Qualquer coisa muito além disso nos faz passar o papel ridículo que estamos passando. O brasileiro é assim mesmo: não tem competência para sequer manter suas crianças longe das ruas, mas acha que pode sediar grandes competições internacionais. Afinal somos brasileiros, e brasileiro, como se diz, não desiste nunca. Vamos fazer os mais capengas Jogos Panamericanos da história, e depois vamos querer fazer Olimpíada.
É isso aí, Brasil. O Pan é nosso. Agora só faltam a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O presidente-monarca do nosso Comitê Olímpico, Carlos Arthur Nuzman, mostra que é um homem sensato, competente e responsável.
