Temporama

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz 2012!

A mensagem desse ano vai ser curta.

Aos meus queridos amigos: obrigado por mais um grande ano juntos. Tenho muito orgulho de sempre ter escolhido os amigos certos na vida. Vamos juntos para 2012.

Nunca escondi de ninguém o valor que dou à família, mas em 2011 o papel dela na minha vida foi (ainda mais) especial. A todos vocês, pai, Renata, mãe, irmão, avós, Maria, primos e primas, tios e tias, Flávia, Betinho: obrigado, por esse ano e por todos os outros.

Um excelente 2012 a todos!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Reflexões Sobre o Fim de Osama bin Laden

Por mais improvável que seja o fato de os EUA estarem forjando o assassinato de Osama Bin Laden, não haverá alternativas: eles precisam (e vão, creio eu) divulgar imagens do corpo. Mas acertam ao esperar. É necessário aguardar que a demanda surja e se solidifique, para então aquietá-la com o golpe certeiro de imagens convincentes. O mesmo deve ser feito com o restante das informações: aquelas que não forem confidenciais serão divulgadas em doses homeopáticas e certeiras, sempre respondendo a questões que venham a surgir. É balela a história de que enterraram Bin Laden no mar respeitando as 24 horas da tradição muçulmana. Em vez disso, desfizeram-se rapida e definitivamente de algo que certamente se transformaria em objeto de veneração e santuário de peregrinação para os extremistas.

Na remotíssima hipótese de os EUA estarem mentindo ou equivocados, o estrago será irreversível. O pior cenário possível seria Bin Laden aparecer num video dizendo algo como: "Acham que me pegaram, seus babacas?"

Bin Laden era uma pessoa essencialmente do mal e que dedicava-se incansavelmente a praticar o mal. Sua morte, da forma como foi, não por motivo de saúde ou outras causas naturais, mas sim com seu esconderijo sendo descoberto e invadido pelas forças americanas, sem qualquer ajuda do governo local, é um tapa na cara da Al Qaeda e um alívio para a sociedade mundial. Infelizmente temo que, a longo prazo, o mundo ocidental se encontre sem opção e precise combater ativa e abertamente o fundamentalismo muçulmano, cujos valores se chocam frontalmente contra os valores de liberdade tão cultivados na maior parte do ocidente e sobretudo nos Estados Unidos. Até quando as sociedades ocidentais aceitarão ver mulheres e crianças rotineiramente humilhadas e extirpadas de sua dignidade, ainda que isso seja atribuído a questões culturais ou religiosas? Até quando veremos pais que, mesmo por estas razões religiosas, mandam seus jovens filhos morrerem com bombas presas ao corpo com o único objetivo de matar civis? Até quando se tolerará sociedades que entregam armas nas mãos de crianças e as mandam para o combate? Os valores ocidentais são diametralmente opostos a tudo isso. Haverá espaço no mundo para tanta dicotomia e antagonismo? Até quando o mundo, e em especial os EUA, resistirão a combater um extremismo que acha que sua religião deve prevalecer sobre as outras, ditar a lei e governar países, que ensina o ódio nas escolas e prega abertamente o extermínio puro e simples de seres humanos?

O chamado mundo ocidental tem como um de seus pilares básicos a liberdade de religião, mas talvez acabe se deparando com uma incômoda situação na qual precise admitir que existe um setor fundamentalista islâmico cujos preceitos simplesmente não podem ser colocados em prática e não têm espaço no mundo atual, mais ou menos como foi com o holocausto. Por enquanto, o discurso é de que a guerra é contra os terroristas e não contra o Islã, e não poderia ser diferente. Mas a prática, cada vez mais, demonstra que a guerra aberta -- não contra a religião muçulmana, mas contra o extremismo muçulmano -- está cada vez mais próxima. É mais fácil combater o inimigo quando a guerra é declarada. No século passado, a Alemanha nazista e seu eixo do mal chegaram a tal ponto que o resto do mundo precisou intervir fisicamente na situação e depois desenvolver um plano de longo prazo, assegurando que aqueles valores não mais proliferassem. Apesar de todo o sofrimento e do imenso custo de recursos e de vidas humanas, graças a isso o mundo hoje é melhor do que seria se nada tivesse sido feito. A questão do extremismo islâmico, a meu ver, caminha para situação similar, porém muito mais complexa, em função de um sem-número de fatores políticos, geográficos e sociais.

Nesse eventual -- e, em minha opinião, perfeitamente plausível a longo prazo -- cenário, é difícil prever como se comportariam países poderosos e não necessariamente alinhados com o ocidente, como China e Rússia, entre outros. Seria isto combustível suficiente para uma guerra de larga escala?

Não sei em que geração acontecerá, nem se acontecerá. Todos sabemos as graves consequências das guerras. Mas me parece que chegará o momento em que os benefícios poderão compensar os custos, por maiores que eles sejam.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Carta de Seneca a Lucilius

Publico abaixo uma das cartas do filósofo romano Seneca a seu amigo Lucilius, escrita no ano 63 DC.



Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.

Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.

Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.

E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não a considero pobre. Mas é melhor que tu conserves todos os teus pertences, e começarás em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sexo Sujo e Piranhagem

Lamento profundamente a forma como a Globo faz as suas novelas e os valores nelas divulgados. O problema não são os valores em si, mas o fato de que são exibidos em horários em que muitas crianças estão acordadas e vendo TV com os pais. O perverso de algumas novelas da Globo (digo da Globo porque são as que o brasileiro mais assiste, mas acho que isto pode ser aplicado a qualquer rede de TV) é que os maus valores não fazem, necessariamente, parte da composição de maus caracteres. Muitas vezes, pessoas tidas na novela como "do bem" ou "cool" praticam a traição, a humilhação, a mentira, os xingamentos, a futilidade, o homossexualismo (nada, nada MESMO contra isso, de forma alguma. Mas prefiro que o tema "homossexualismo" -- e até mesmo o tema "sexo" -- seja abordado perante indivíduos já formados e que têm condições de, com a base adquirida em sua formação, fazer suas próprias escolhas). Estes valores inundam o cotidiano de milhões de brasileiros de todas as idades e, queiramos ou não, em um país cuja identidade cultural tem como pilar uma rede de TV, acabam fazendo parte de nossas vidas. Há muito já se constatou que as novelas influenciam no comportamento social do brasileiro.

Na primeira página do Globo.com de ontem à tarde, em horário que crianças podem perfeitamente acessar a internet, dizia a manchete, com foto, sobre a novela das 8: "problema de fulano é gostar de sexo sujo". Sexo sujo? Que porra é essa?! Meu filho poderia estar na internet naquele horário. Ele só tem 7 anos. Que porra é essa?!

Aí, ontem, estava perto de uma TV ligada na novela (não, eu não estava vendo novela). Eu não tava nem aí pra hora do Brasil, tinha subido só pra pegar uma cerveja, e naqueles 20 segundos nos quais eu estava passando houve o seguinte diálogo entre duas jovens:

-- Sua piranha!
-- O que?!
-- É, você e a fulana são duas piranhas! É isso mesmo, piranhas!

Um pouco mais entristecido -- meu filho estava jogando seu portátil ali do lado -- saí do ambiente.

Agora de manhã, ao acessar o Globo.com, mais uma manchete com foto, sobre a mesma novela: "Fulana se esfaqueia e arma para culpar a avó".

Mais uma vez: QUE PORRA É ESSA?? Não vejo problema nenhum em histórias adultas (pelo contrário), mas sou contra sua veiculação na forma como estamos vendo. O pior é que vejo que cada vez mais pessoas não estão nem aí pra isso. Ou seja, essas coisas estão cada vez mais naturais para a sociedade. Sou radicalmente (e bota radicalmente nisso) contra o controle da mídia pelo governo, mas já não é a primeira vez que ela dá motivos de sobra para que se fale nisso. Se a mídia quer se autorregular, que o faça decentemente. O que não pode acontecer são estes excessos que estamos vendo.

Update: As novelas continuam atropelando sistematicamente os valores da sociedade, construídos ao longo de muito tempo e que tanto sacrifício exigem dos pais na criação de seus filhos. Manchete exibida hoje (21/12/2010) pela manhã no Globo.com: 

'Passione' hoje: Fred humilha e Mauro agride

Repito, nada contra a liberdade de criação (muito pelo contrário). Mas já detalhei meu ponto de vista num dos parágrafos acima.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Wff...

Sabe que som é esse?

Esse é o som de seis meses passando. E isso aqui sem atualização.

Bem, se tiver que ser assim, que seja.

Não Somos Alcachofras!

"Não existe dádiva mais importante para um ser humano que a capacidade de ver, ouvir, ler, e depois analisar e então tecer seu próprio julgamento."

Quem se recusa às influências externas não confia em sua própria capacidade de julgar. E quem não confia em sua capacidade de julgar está correto ao permitir que os outros o façam por si. A questão é ter, ao menos, a capacidade de selecionar bem em quem confiar, sob pena de ser manipulado e transformado em massa de manobra.

A primeira pessoa a questionar o seu julgamento deve ser você mesmo. De forma rigorosa e imparcial. Aprenda de uma vez por todas que sim, você pode estar errado e que isto necessariamente ocorrerá com alguma frequência. Se o seu julgamento não resistir a estes primeiros questionamentos, é possível que ele esteja equivocado. Por outro lado, chegar a um julgamento que nós mesmos não conseguimos deitar abaixo, e percebemos então sua qualidade e força, é gratificante e edificante. É um exercício do qual sempre saímos melhorados. É muito mais fácil e confortável defender um julgamento previa e severamente testado.

Ao incorporarmos este hábito em todos os arcos sobrepostos de nossas vidas a ponto de fazê-lo instintivamente, criamos um círculo de virtude e bom-senso do qual nunca mais consegue-se sair. É fácil a escolha entre o pensamento medíocre e o pensamento valoroso.

É impossível superestimar a importância do julgamento. Sem ele, assume-se deliberada e estupidamente o perigoso risco de desenvolver processos improdutivos ou, pior ainda, prejudiciais. Porém, há algo profundamente dependente de um bom julgamento, mas ainda mais importante que ele: a ação. O julgamento nunca deve perturbar a ação. Reflexões e considerações sem fim, em detrimento de uma eventual ação, atiram no lixo todo e qualquer benefício proveniente de um bom julgamento. É melhor agir errado e tentar corrigir depois do que não agir. Pior que a má ação, só a inércia. Mas este não é o foco tratado aqui. 

Até a próxima.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Epifania

Eu cago e ando para virada de ano, e balanço de fim de ano é coisa de gente que não tem o que fazer. Mas foda-se, fiz o meu.

2009 não foi o melhor ano da minha vida. Também não foi o pior. Mas foi, sem dúvida, um ano em que aprendi muita coisa.

Foi um ano de epifania. Não foi a primeira, não deve ser a última. Ainda bem, porque no dia em que os fatos e experiências da vida não mais produzirem efeito em mim, é porque estou morto.

Em 2009, o coração amoleceu um pouco e aprendi que às vezes devemos deixá-lo falar. Aprendi a compreender as dificuldades dos outros. A me importar com pessoas em lugares remotos e que sequer sabem que existo. Que não existe preto e branco, bem e mal, apenas diversos ângulos de visão. A não ser o dono da verdade, e ouvir e respeitar outras opiniões. Aprendi que até mesmo o mais ignorante dos ignorantes pode ser capaz de brilhar. Que cada pessoa tem a sua história, e histórias diferentes geram pessoas diferentes.

Aprendi que não devemos deixar as coisas à mercê do destino, e que podemos ajudá-lo a nos favorecer. Percebi o imenso potencial, há muito esquecido, que temos em nossas mãos. Que até mesmo o aço mais forte pode ser dobrado e que mesmo que a vida não queira podemos forjá-la à nossa satisfação. Que preciso me preocupar comigo mesmo para que então seja possível fazer algo pelos outros. Que nada é mais importante que a saúde do corpo e da mente. Que devemos nos preparar para as adversidades, mas não permitir que elas nos ocupem sem que sequer saibamos se realmente chegarão a acontecer. Aprendi a não perder tempo com besteiras. A evitar conflitos infrutíferos, sem fugir dos conflitos que possam trazer algum benefício posterior.

 O próximo ano será ainda melhor? Espero de coração que sim, para mim e para todos nós. Feliz 2010. E agora chega dessa babaquice, voltemos aos nossos afazeres.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Sim às Drogas, Não ao Tráfico

Não tenho nada contra as chamadas drogas em si. Na verdade, estou convencido de que elas podem (podem) até mesmo proporcionar benefícios pessoais se utilizadas com responsabilidade. O que devemos ter em mente é que, ao comprarmos tais drogas, estamos subsidiando a escória da humanidade e tudo o que há de negativo no ser humano. Quem alimenta o lixo da sociedade não tem o direito de reclamar das mazelas que este investimento gera.

Sou plenamente a favor do livre arbítrio de cada um - e consequentemente da legalização do uso de qualquer substância, mas peço que se refllita profudamente antes de injetar dinheiro em setores que só geram dor e sofrimento.

É um tema que merece aprofundamento e, quando tiver saco, pretendo fazê-lo aqui neste espaço.

Natal

Não tenho (e desprezo profundamente) qualquer religião. Mas, neste natal, meus pensamentos estão com todos necessitados e os que passam pelas dificuldades que a vida às vezes impõe. Jovens e velhos, ricos e pobres. Gostaria de poder fazer mais por cada um e por um mundo melhor.

O mais importante da vida é permanecermos fiéis aos nossos valores, mesmo que eles mudem de quando em vez.

Sempre pra frente, sempre mais forte. Precisamos sempre ser melhores amanhã do que somos hoje.

Um abraço fraterno, e muita força a todos.

Feliz natal.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Autocrítica

Vou explicar por que, honestamente, considero que escrevo de forma medíocre.

Raramente fico satisfeito com o que escrevo. Não fico contente com o resultado, e não o ajusto por pura falta de competência. Quando, então, leio alguns outros autores, percebo a colossal extensão do quanto ainda preciso melhorar.

Naturalmente, escrever envolve dois lados: o de quem escreve e, claro, o de quem lê. Para mim,  escrever - seja um blog post, uma história ou um mísero email - consiste em traduzir, com a fidelidade possível, pensamentos em letras. Junto com os pensamentos, mas de forma nem tão exata assim, procuro também infundir no texto meus sentimentos e emoções a respeito do assunto tratado. Esta parte, porém, tento fazer de forma sutil: os fatos vão nas letras, as emoções vão nas entrelinhas. Se tudo der certo, no fim terei passado, de forma satisfatória, minhas visão e idéias sobre determinado tema. É o primeiro passo para uma boa comunicação.

Atualmente, para mim, o maior desafio junto às letras é estabelecer a fronteira entre os fatos e as emoções. Fatos demais e sentimento de menos dão origem a um conteúdo frio - não necessariamente ruim -, em geral adequado a fins formais, comerciais ou de trabalho, mas inapropriado para locais como por exemplo este blog, onde escrevo como forma de lazer. Inverta as coisas, colocando emoção em demasia, e aí sim a vaca vai pro brejo: surge um texto pouco embasado e com aparência imatura.

Entendo que sentimento não se dita: ele deve aflorar naturalmente em quem lê. Quando caímos no erro de escrever o que achamos que o leitor deve sentir, estamos subestimando sua capacidade de interpretar. Quando o leitor percebe que está sendo subestimado pelo autor, o interesse vai embora - e o texto deixa de atingir seu objetivo básico, que é chegar satisfatoriamente ao outro lado. Pura perda de tempo nas duas pontas: a de quem lê e a de quem escreve. Isto foi algo que demorei demais a perceber e que me custou muito tempo jogado fora com textos de qualidade desprezível. Acontece ainda hoje.

Então, onde posicionar esta fronteira? A resposta é: se eu soubesse, certamente escreveria com mais qualidade. Existem pessoas que dominam com maestria a arte de transmitir emoções sem ter de dizê-las de forma literal. A primeira que me vem à mente, talvez por estar em evidência, é a blogueira Yoani Sánchez, do excelente blog Generación Y. Cubana, Yoani dedica sua página a comentar as dificuldades da vida em Cuba, quase sempre criticando a ditadura que lá se instalou. Suas palavras são mansas; seu estilo, centrado e contido. No entanto, é fácil notar a mistura de inquietação, raiva, ansiedade e revolta. Nem sempre estas emoções estão ali, patentes; no entanto, atingem o leitor em cheio. Também me vêm à memória Ali Kamel, Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e o sarcástico Diogo Mainardi, que são alguns dos outros que, cada um dentro de seu estilo, sabem provocar no leitor impressões que nem sempre constam de forma explícita em seus textos.

E este é só um dos aspectos, existem outros. Tendo a ser prolixo e pouco objetivo, e a escrever de forma desinteressante e por vezes excessivamente concreta. Eventualmente erro na gramática. Uso advérbios em exagero. Me faltam os adjetivos e um maior domínio do vocabulário e da língua.

Como se vê, há muito o que melhorar, para o benefício de todos os meus 2 leitores.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Despertar

 Seward Johnson - WikiMedia Commons


Quem somos? Qual o significado da vida?

Comecei com esse clichê barato para dizer que não tenho mais pretensão ou sequer vontade de tentar responder a estas questões milenares. Não que me sinta incapaz de fazê-lo, e sim porque, para mim, já não é mais necessário. Sou daqueles que, ao invés de acharem que as grandes questões da existência permanecem sem resposta, acreditam que a resposta provavelmente já tenha sido dada e que, talvez, ela não seja tão edificante e nem tenha tanto sentido quanto desejamos.

"Imperador, tua espada não vai te ajudar
Aqui, coroa e cetro são inúteis
Tomei-te pela mão
E hoje, dançarás comigo"

(Anon.: Vierzeiliger oberdeutscher Totentanz, Heidelberger Blockbuch,
aprox. 1460, em tradução livre.)


Toda existência humana tem um fim. Não interessa quem somos ou quanto poder tenhamos, terminaremos todos, rico ou pobre, poderoso ou pé-rapado, de forma muito semelhante. Até lá, viveremos uma frágil, tênue, efêmera realidade. Pode ser desconfortável encarar, mas somos todos iguais,  meros grãos de areia em uma praia vasta, quase nada. Quem foi que disse que a realidade deve necessariamente ser como desejamos?

Uma das pouquíssimas vantagens de se ficar mais velho é poder contar com a experiência que, necessariamente, se acumula. Nunca fui de deixar a vida "passar batida" sem tentar compreender as coisas. Desde que me dou por gente sou inclinado a uma certa filosofia, e com o tempo chegou um momento em que me vi obrigado a repensar toda a minha vida. Não com base em crenças momentâneas, opiniões alheias e valores temporais, mas sim em anos de observação, reflexão e (auto)análise. Até agora não consigo entender direito como e quando se deu este processo. Percebi que todos os elementos, indícios e também conclusões apontavam, de forma contundente e quase que assustadora, para uma mesma direção. Em minha cabeça criei um furacão, e depois acabei sendo levado por ele. Então, (felizmente!) decidi -- ou melhor, fui forçado a -- seguir o caminho que, talvez por acaso, talvez não, escancarou-se à minha frente.

Não parece mais haver volta: mesmo relativamente jovem, fui tomado por um desejo irrefreável, quase desesperado, de, no mais amplo sentido, aproveitar a vida enquanto ainda é possível. Encarar da melhor forma os maus momentos (e, claro, tentar superá-los o quanto antes), e capturar, como a uma flecha no ar, aqueles possíveis bons momentos que se oferecem a todo instante e que tantas vezes dispensamos, como quem já os tem em abundância, como se fosse possível haver bons momentos em demasia, como se as oportunidades fossem acontecer para sempre!

Uma oportunidade adiada é uma oportunidade perdida, deixada de lado, numa falsa, tola e arrogante certeza de que ela se oferecerá novamente no futuro.

O futuro é agora.

Dizem que há um pote de ouro esperando por nós no fim do arco-íris. Eu pretendo encontrar o meu. Para isso, é preciso continuar caminhando sempre. A vida é, basicamente, uma sucessão de momentos medíocres permeados por ocasionais momentos ruins e também momentos bons. Sob pena de não atingirmos a riqueza que nos aguarda, cabe a nós desempenhar nosso papel para maximizar a frequência e a experiência destes últimos.

A vida é uma só, e não sabemos o que nos aguarda na próxima esquina. Somos levados por ela, mas, ainda que de forma limitada, também podemos conduzi-la. Podemos optar por deixar que os anos escorram por entre nossas mãos, ou podemos agarrá-los e espremer cada minuto para extrair o máximo que for possível.

De qualquer forma, tudo passará num estalar de dedos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Atraso



Conheço gente suficientemente atrasada para considerar que, por ser ateísta, uma pessoa não tem princípios morais ou valores bem formados. Qualquer um que lance um olhar sobre a humanidade - seja ontem, seja hoje - constatará que a razão, decididamente, não é o seu forte. Uma pena o ser humano tratar com tanto desprezo justamente aquilo que o diferencia de uma alcachofra. 95% das pessoas vivem suas vidas de forma plena sem sequer aprender a questionar, a pensar, a procurar a base por trás de alegações feitas por pessoas tão falíveis quanto eu ou você. No entanto, em geral são felizes assim.

Como dizia o poeta inglês Thomas Gray: "where ignorance is bliss, 'Tiss folly to be wise" (em tradução livre: "Quando a ignorância é felicidade, é loucura ser sábio"). Discordo deste conceito. Prefiro ser uma pessoa informada e não tão feliz assim a ser uma pessoa alienada e feliz. Como contraponto, cito uma frase (de difícil tradução do inglês) do genial evolucionista Richard Dawkins, que diz: "Somos todos ateus em relação à maioria dos deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós vão um deus a mais" ("We are all atheists about most of the gods humanity has ever believed in. Some of us just go one god further").

"No sexto dia, deus criou o homem. No sétimo dia, o homem retribuiu o favor" (origem desconhecida)

Há uma multitude de deidades nas quais o Homem acreditou ao longo dos milênios. Deidades idolatradas por pessoas como eu ou como você, e com uma intensidade tão grande -- ou maior -- quanto a que hoje se idolatra o deus do cristianismo. Se você não acredita ou acha até pitoresco ou engraçado acreditar em Belenos, Gaia, Odin, Diana, Marte, Vênus, Ísis, Anúbis, Ra, Ishtar, Mithra, Quetzalcoatl e tantos outros, não há razão alguma para acreditar no "Deus". E NÃO, eles não são a mesma entidade. Isto é um artifício barato frequentemente utilizado (normalmente por ignorância) pelos religiosos. Mas os deuses criados pelo homem são diferentes entre si, e muitas vezes antagônicos.

Se, no entanto, a crença em algo cuja existência é tão difícil de constatar quanto a de fadas, duendes e marcianos faz bem a alguém, qual o sentido de contestar? Talvez Thomas Gray tenha razão, afinal de contas. Talvez seja loucura ser sábio.


Secando a Paciência e o Bolso do Carioca

Sou plenamente favorável a coibir os abusos do álcool por quem vai pegar o volante. Sempre fui razoavelmente responsável com o tema e quando dirigia bebia pouco o suficiente para me permitir voltar para casa sem transtornos. Sempre dirigi de forma prudente e muito raramente me envolvi em acidentes, nunca após beber.

Dito isso, temos agora a seguinte situação: trabalho de segunda a sexta, pago todos os meus impostos, quero sair e beber no fim de semana, e o Governo do Estado do Rio diz que eu não posso ir de carro. Ok. Daqui do meu cantinho, enquanto cidadão, pergunto: "senhor governo, já que eu não posso sair de carro, como faço?"

O governo nos proíbe o automóvel se formos beber. Até aí, tudo perfeito. No entanto, é dever do governo oferecer ao cidadão as alternativas de transporte para que ele continue podendo exercer seu direito de ir e vir. É muito fácil dar uma "canetada" e proibir o uso do carro para quem vai beber, mas e aí? Andar de ônibus de madrugada, no Rio, é pedir para ter problemas. Não há segurança e estrutura alguma para quem quiser fazê-lo. O Metrô fecha às 23h. E aí, sr. governo? Sou obrigado a gastar R$70 de táxi, na bandeira 2, só para tirar o traseiro de casa? Ou o governo passará a subsidiar o táxi pra quem quer ter seus momentos de lazer?

É louvável que haja tanta preocupação com a segurança do cidadão. Mas precisa fazer a coisa direito, ou do contrário fica parecendo mais uma medida de caráter arrecadatório.

Se o objetivo não é arrecadar, por que as blitze se concentram em bairros de maior poder aquisitivo (no caso do Rio, o eixo Barra-Zona Sul)? Se há tanta preocupação com a segurança do carioca, por que os policiais a pé somem das ruas à noite e em dias de chuva? Por que o governo não coíbe as infrações de seus próprios automóveis? Por que a polícia, com sirene e giroscópio desligados, comete tantas infrações de trânsito? Por que a polícia não entra numa grande favela e faz uma apreensão em massa de todas as motocicletas em condições irregulares usando o mesmo rigor que tem caracterizado as blitze da lei seca?

Para piorar, a imprensa carioca (Globo) abraçou a ideia da lei seca. Tem todo o direito de fazê-lo, mas deveria, na mesma proporção e dentro do seu papel de imprensa, cobrar do governo as alternativas de transporte para o cidadão.

Back For More...

Bem, depois de um longo e agradável inverno, sinto que é hora de reativar isso aqui.

Algumas mudanças serão feitas. A partir de agora o conteúdo do blog será um pouco mais diversificado, e agora pretendo simplesmente usá-lo como um repositório para meus pensamentos e opiniões. Sem formatos preestabelecidos ou objetivos definidos. As atualizações ocorrerão quando ocorrerem, e, para refletir meu atual estado de espírito, a coisa vai correr de forma mais solta e informal. Para evitar o lixaral que invadiu o blog, por enquanto os comentários estarão desabilitados.

Agradeço, de coração, pelo ocasional feedback, mesmo tendo o blog ficado tanto tempo inativo. Quem quiser pode me contactar pelo meu email (cchame@gmail.com) ou pelo meu recém-criado (e desinteressante) Twitter (twitter.com/carloschame).

Vamos ver no que vai dar.

Grande abraço a todos!





terça-feira, 3 de abril de 2007

O Transtorno do Ladrão

É lamentável a complacência com a qual a parte da imprensa tem tratado o (ex-?) rabino Henry Sobel. Se é verdade que ele tem um longo histórico de serviços prestados à sociedade - que, de maneira alguma, tiveram sua importância diminuída -, é também verdade que ele furtou gravatas em pelo menos três lojas diferentes do estado da Florida: Louis Vuitton, Gucci e Giorgio Palm Beach. Desta vez a coisa veio a público, e não é possível determinar se Sobel vem furtando impunemente em outras ocasiões ao longo da vida, se é que o tenha feito.

Depois do episódio, pediu dispensa do cargo que ocupava na Congregação Israelita Paulista e foi internado para tratamento de "transtornos de humor" no Hospital Albert Einstein. O rabino foi preso nos EUA em 23 de março, mas somente após o "vazamento" da notícia na imprensa brasileira, quase uma semana depois, tomou as atitudes. O que poderia levar alguém a crer que, caso o episódio passasse em branco por aqui, tudo ficaria por isso mesmo. Ou então, que os supostos transtornos de Sobel só tenham se manifestado depois da divulgação da coisa no Brasil.

O comportamento de Sobel foi atribuído a medicamentos que ele estaria utilizando. Esta tem sido uma das desculpas preferidas entre os ricos ultimamente, o estilista Ronaldo Ésper que o diga. É curioso que os medicamentos gerem nas pessoas a propensão ao furto, e não a, por exemplo, dançar pelas ruas fantasiado de Carmen Miranda, tocando uma zabumba invisível, com um queijo minas pendurado no pescoço e gritando aos quatro ventos que os cabelos de Nietzsche eram tingidos.

Enquanto mães pobres, que não têm o que dar de comer aos filhos, cumprem pena por furtar manteiga no supermercado, Sobel furta itens tão supérfluos quanto gravatas e é tratado como um pobre-coitado que necessita de auxílio.

Este é o reflexo pálido do preconceito arraigado na sociedade: furtos, quando cometidos pelo rico, são tratados como deslizes. Já o negro e o pobre, quando cometem o mesmo delito, são simplesmente taxados como ladrões.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Salvem a Tradição!

Fui cantar de galo e me dei mal (para entender porque, veja o post de ontem, logo abaixo). Acabo de abrir o jornal e ver um anúncio de meia página do Porcão, anunciando um estupendo buffet de peixes (argh!). Terei de ir em uma churrascaria, digamos, mais tradicional.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

A Santa Sexta

Lembro-me que, por volta dos meus 5 anos de idade, uma de minhas brincadeiras favoritas era, quando passeava de carro, disputar uma corrida com os outros motoristas. Meu pai ia ao volante (na verdade, sem sequer saber que disputava uma corrida), e eu ia no banco traseiro, participando daquela sensacional competição imaginária. Funcionava assim: quando meu pai, em meio ao trânsito, ultrapassava outro motorista, eu vibrava. Algumas vezes, chegava até a narrar cheio de empolgação e entusiasmo a “audaciosa” ultrapassagem. Mas quando, por qualquer razão, algum motorista ultrapassava o carro de meu pai, ele era “desclassificado”. Na verdade, era como se ele nunca tivesse existido, como se a ultrapassagem não tivesse ocorrido. Não tinha a menor graça ver meu pai ficando para trás, não valia. Era uma corrida por vezes disputadíssima, mas no final, de uma maneira ou de outra, eu sempre vencia.

Lembrei dessa engraçada história porque amanhã é Sexta-Feira Santa, e a maneira pela qual fui ensinado a evitar a carne nesse dia se parece bastante com a corrida imaginária que disputava quando garoto.

Tendo sido criado em meio a ensinamentos católicos, sempre fui ensinado a não comer carne vermelha na Sexta-Feira Santa. Cresci com esse hábito. Nunca ninguém se preocupou em me explicar exatamente o por que desse costume, não sei se por falta de necessidade ou de conhecimento. Tudo o que eu sabia era que a Sexta-Feira Santa era um dia religioso muito importante, que tinha a ver com Jesus, e que nesse dia não podíamos comer carne. Na verdade, isso não é muito menos do que sei hoje. Mas o fato é que o jovem Beto, como tantas outras pessoas, partilhava desse costume.

Certo dia, estávamos eu, meu pai, minha mãe e meu irmão jantando em um restaurante. O jantar transcorria como de costume quando notei que meu pai retorcia o rosto. “Caramba, hoje é Sexta-Feira Santa” disse ele. Demorei um pouco para perceber o que estava acontecendo, mas logo entendi: no prato dele, que já estava pela metade, havia carne. Naquele momento o mundo desabou sobre mim. “Meu deus, seremos punidos!” pensei, e imediatamente fiz a pergunta à minha mãe. “Não, meu filho”, respondeu ela, “se comermos por esquecimento, não tem problema”.

Não sei de onde minha mãe tirou aquela regra que por diversas vezes salvou meu pai e muitos outros, mas isso me lembra a incrível corrida imaginária da minha infância. Era rigorosamente, terminantemente proibido comer carne naquele dia, mas se você se esquecesse, e se fartasse de carne até não agüentar mais, não havia problema algum! Era como se a proibição só valesse pra quem se lembrasse de cumpri-la. Aqueles que lembravam-se durante todo aquele dia de que não poderiam comer carne faziam algum esforço, e comiam um peixe ou uma salada. Já para os relapsos ou os que tinham memória fraca, a Sexta-Feira Santa reservava fartos almoços, muitas vezes em churrascarias “inexplicavelmente” vazias e com atendimento personalizado.

Nem é preciso dizer que, entre o Preceito da Religião e o Preceito da Mãe, fiquei com o segundo. Muitas vezes me esquecia (genuinamente) da Sexta-Feira Santa e comia à vontade. Se depois eu me lembrasse, estava perdoado por deus. Quando, por outro lado, eu me lembrava que naquele dia eu não poderia comer carne (logo eu, que não como peixe e só como frango se não houver outra opção), ficava chateado. Afinal, eu havia me lembrado, e agora teria de respeitar. A não ser, claro, que eu tivesse a luz divina de, dali a alguns minutos, esquecer da proibição e aí poder comer à vontade, com todo o inesgotável perdão de Jesus.

Bem, foram tantas as vezes em que me esqueci e acabei indo parar em uma churrascaria ou degustando um delicioso hambúrguer que, depois de alguns anos, passei a não dar mais bola pro assunto. Na verdade, hoje considero quase que uma obrigação ir a uma churrascaria na Santa Sexta. Quem já foi a uma churrascaria imensa, com meia dúzia de mesas ocupadas, num ambiente mais tranqüilo que museu, com todos aqueles garçons e toda aquela carne, sempre bem quentinha, sempre no ponto desejado (já que ela vem praticamente da cozinha direto para a sua mesa), sabe o que estou falando. Não há, no ano, dia melhor para se ir ao Porcão. Sem contar, claro, que é engraçado comer carne num dia em que muitas pessoas, por religião e muitas vezes sem sequer saber por que, evitam. Estaria mentindo se negasse que há também uma pontinha de provocação a quem, ignorando as razões e fugindo ao bom senso, acaba por privar-se de momentos prazerosos.

É por isso que amanhã, Jesus permitindo, estaremos eu, Flávia e Betinho, mais uma vez, desfrutando aquela incrível capinha de picanha e aquela deliciosa costela, num ambiente calmo e acolhedor, que só a Santa Sexta é capaz de proporcionar.

Jesus que me perdoe.

sexta-feira, 3 de março de 2006

As Prostitutas que me Desculpem

Estamos sendo bombardeados por apelos televisivos do deputado Michel Temer pregando a adoção, pelo seu partido, o PMDB, de candidatura própria à presidência da república. Diz que o PMDB fará o governo que "mudará o Brasil".

O PMDB é hoje o partido mais prostituído da esfera política brasileira. Nos últimos vinte anos, o PMDB foi "governo" por dezoito. Era governo na época de FHC, é (incrível!) governo na era Lula. Como, então, pode julgar-se capaz de conduzir o governo que vai mudar o país? Deputado Michel Temer, pare de subestimar a inteligência de seus eleitores. Pensando bem, esqueça o que eu disse. Pode subestimar sim, porque esta estratégia já se mostrou eficaz incontáveis vezes na história do país.

Atualmente, se tiver de escolher entre votar no PT ou no PMDB, me mudo para o Chile.

Patrocinar para que?

Imprensa que se diz séria tem obrigação de esclarecer. É comum nossa imprensa decidir que facetas de uma notícia divulgar. Nossa imprensa também adora contaminar-se com um patriotismo infantil, que só serve, quando muito, para aumentar no cidadão aquele sentimento tolo de que o povo brasileiro é mais inteligente e capacitado do que os outros. Aqui no Temporama, o internauta já sabe: os fatos aparecem do jeito que realmente são, mesmo que não sejam do nosso agrado.

Pois bem, vamos esclarecer alguns fatos (que, admito, em nada alteram nossas vidas) a respeito da Volvo Ocean Race, uma regata com várias etapas cujo objetivo é concluir uma volta ao mundo. Como a imprensa vem divulgando, o barco Brasil I realmente está em quinto lugar. Esclareço apenas que a competição conta somente com sete barcos, portanto o barco brasileiro está em antepenúltimo lugar. Já o barco líder, no entanto, não é o "Holanda I", como divulgou a imprensa. Fico até constrangido ao dizer que, na verdade, não existe nenhum barco com esse nome na competição. O nome do barco líder é ABN AMRO One. Ponto. Não importa que o nome do barco seja o mesmo do patrocinador. Estamos carecas de ver isso no vôlei, no automobilismo, e em tantas outras categorias esportivas. Se a imprensa pode mencionar o time da Supergasbrás e a equipe da Medley, deve também divulgar o nome correto do barco ABN AMRO One, sob pena de pôr em cheque parte de sua credibilidade.

Brasileiro Ilustre

Seguindo a tradição de longa data em nosso país, uma vez mais execramos a pessoa errada e jogamos confete em quem deveria ser criticado. Juscelino Kubitscheck era, no máximo, um brasileiro bem-intencionado que assumiu a presidência. Daí em diante, só fez lambança. Sob os pretextos de levar o desenvolvimento para o interior e afastar a capital do litoral -- para o caso de guerras --, construiu Brasília. Ninguém fala do endividamento desenfreado e do caos em que nossa economia mergulhou e em que permaneceu por décadas. Ninguém fala que o interior do país continua sub-sub-subdesenvolvido. O argumento de afastar a capital do litoral chega a ser estapafúrdio se lembrarmos de cidades muito mais importantes que a nossa antiga capital, e que também encontram-se, em variados graus, próximas ao litoral: Nova York, Tóquio, Londres e Paris, para mencionar apenas algumas poucas que me vieram imediatamente à cabeça.

Juscelino era um megalomaníaco quase patológico. Instalou no país as montadoras de automóveis, que até o governo Collor só fabricavam carroças. JK selou por décadas nossa total falta de acesso aos carros americanos, japoneses e europeus, todos eles muito melhores que as charretes motorizadas que somos obrigados a usar até hoje. Quase todos concordam em condenar o chamado "modelo desenvolvimentista", mas quase todos fazem questão de jogar serpentinas em JK. Ninguém se preocupa com a evidente incoerência.

Já Carlos Lacerda, coitado, esse quase nunca é lembrado. Pouco importa que muitas de suas idéias tenham perdurado até os dias atuais. Fernando Henrique Cardoso, então, nem se fala. Seus dois governos foram responsáveis pela recuperação econômica do país, e proporcionaram aos pobres a maior conquista com a qual poderiam sonhar: o controle da inflação. No entanto, não tenho nenhuma esperança de ver, um dia, homenagens e minisséries dedicadas a estes dois.

JK, assim como Getúlio Vargas, ganhou a admiração eterna dos brasileiros. Não vejo a hora de colocarmos nesse rol personalidades de quilate comparável, como Lula e Anthony Garotinho.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Ditadura das Minorias

Estamos tendo a oportunidade de constatar, uma vez mais, o que eu chamo de ditadura das minorias. Foram anunciados os filmes candidados ao Oscar. Eu ainda não sei ao certo quais são. Só sei que um dos filmes trata sobre dois cowboys gays. E é só nesse filme que se fala. Por que nossa sociedade é assim? Ninguém ainda sequer viu os filmes, mas só se fala nos tais cowboys gays. A sociedade já escolheu para quem vai torcer no Oscar.

Por que o tema gay dá tanto ibope? Já tivemos inúmeros filmes de cowboys. Mas todas as vezes que um filme com tema gay concorre ao Oscar, é aquele frisson. Foi assim com Philadelphia, Ou Tudo ou Nada, Traídos pelo Desejo, e tantos outros.

Essa coisa toda, ao longo dos anos, acabou fazendo com que eu criasse uma barreira contra minorias. Eu simplesmente não assisto mais a filmes sobre gays, negros, judeus, drogados e afins. Se puder escolher entre um filme com temática gay e outro sem, escolho o sem. Não que eu não tenha gostado de Philadelphia - até achei, na verdade, razoável. Só que, lá, ainda era o século 20. Acho que, em pleno século 21, a sociedade já deveria ter se dado conta de que gay não é mais novidade.

Eu não entendo o porque de tanto fascínio pelo assunto. No dia em que eu virar cineasta, vou fazer um filme sobre dois mecânicos gays.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Salve, Iemanjá!

A prefeitura do Rio divulgou o balanço da limpleza das praias após a festa do ano novo. Neste ano, um fato positivo: a quantidade de lixo recolhida foi 10% menor que a do ano passado. Tamanha diminuição na quantidade de lixo foi atribuída à mudança da data oficial para oferendas a Iemanjá, que passou, a partir de 2005, a ser no dia 29/12.

Estima-se que dois milhões de pessoas tenham comparecido à festa da virada em Copacabana. Já para as homenagens a Iemanjá, o público estimado foi de quatro mil pessoas. Portanto, quatro mil pessoas são responsáveis por 10% de todo o lixo jogado nas praias.

Os jornais mostraram turistas americanos e europeus maravilhados com as festividades de Iemanjá. Um deles chegou até mesmo a chorar de emoção. Turista é assim mesmo: vem aqui fazer safári para conhecer favela, carnaval e festa de Iemanjá, mas uma semana depois pega o avião para sua terrinha onde o povo é civilizado e as praias são limpas.

Os números não mentem, e falam por si. Basta fazer as contas, e constata-se que, em média, um devoto de Iemanjá emporcalha as praias quase 60 (sim, sessenta) vezes mais que um não-devoto e infinitas vezes mais que um cidadão como eu e, quem sabe, o leitor, que não deixa nada na areia quando vai à praia.

Não tenho nada contra os afeiçoados a Iemanjá, mas como cidadão civilizado que não joga lixo fora de lixeira não posso ficar sentado, batendo palmas e assistindo, junto com Iemanjá, o vilipêndio das nossas praias.

Jogar "oferendas" (que na verdade se tratam de lixo, já que a própria Comlurb recolhe) na areia e no mar é coisa de povo atrasado. Se eu fosse Iemanjá, gostaria de ser homenageado com a limpeza e a conservação das praias, e não com o seu emporcalhamento.

Tenho uma idéia melhor que a mudança da data, e que reduzirá ainda mais o lixo nas praias: a proibição, pura e simples, de se deixar na areia ou no mar qualquer tipo de oferenda. Proponho que os devotos de Iemanjá mudem seu evento, e que a partir do próximo Reveillon, façam um grande mutirão para ajudar os garis na limpeza das praias ao invés de sujá-las.

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Tem Alguém Aí?

Um mês sem atualizações. Não faltou assunto, mas o Temporama ficou aqui, quietinho. Poderia ter falado sobre referendo, José Dirceu, STF, Maluf e tantas outras coisas mais, mas não. Deixo estes temas quase universais para fontes mais competentes.

Como já disse antes, o Temporama não chove no molhado.

Adeus Pirataria

O Ministério Público do Rio de Janeiro celebrou importantíssimo acordo com os Camelôs. O Globo alardeou. Pelo instrumento, o MP vai entrar na luta pela legalização do comércio de rua e, em contrapartida, os camelôs deixarão de vender mercadorias piratas.

Precisa dizer mais alguma coisa?

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Nostradamus?

Não sou profeta. No entanto, corroborando o que disse em meu último post, o Globo Online publicou hoje matéria sobre a construção ilegal de um prédio de 11 andares na favela da Rocinha, a maior do Rio. De acordo com a matéria, o prefeito do Rio, César Maia, declarou que prefere prédios na Rocinha a prédios na Orla.

Acabou a polêmica sobre se tenho razão ou não: o próprio poder público admite abertamente aquilo que eu já havia dito aqui neste espaço.

Confira você mesmo em http://oglobo.globo.com/online/rio/170029913.asp .

domingo, 25 de setembro de 2005

Eco-Desgraça

Esses dias a TV exibiu reportagem na qual o biólogo-showman Mário Moscatelli mostrava o lixo jogado na Lagoa da Tijuca proveniente das favelas à sua margem. Nada que chame realmente a atenção, somente o lixaral de sempre: camas, sofás, pneus e tudo o mais. Em um trecho da margem já há um "lixão" informal que, sem estrutura de impermeabilização, polui o solo, o subsolo, a própria lagoa e os manguezais próximos.

Já não é de hoje que a prefeitura e o governo estadual nada fazem para coibir os danos ao meio-ambiente causados pelas favelas. Em compensação, fazem de tudo para evitar a construção dos chamados eco-resorts. O governo (estadual e municipal) demonstra claramente que prefere uma favela ocupando as margens da lagoa a um eco-resort. O governo inventa toda uma gama de exigências ambientais esdrúxulas para os eco-resorts (como, por exemplo, tratar seu próprio esgoto), mas aceita passivamente a expansão das favelas.

A verdade é que nada agride tanto o meio-ambiente quanto uma favela. Os ambientalistas conscientes deveriam eleger o combate à expansão das favelas a sua prioridade número um. A tarefa, claro, caberia ao governo, mas este está ocupado demais, esmiuçando os relatórios de impacto ambiental de shopping centers, eco-resorts, hotéis e centros comerciais. São atividades que geram empregos e aumentam a arrecadação de impostos, mas ao que parece o governo não está nem um pouco interessado.

Vez por outra a prefeitura do Rio põe abaixo mansões construídas em áreas de proteção ambiental. Nada contra. A construção em local não permitido pode e deve ser combatida. No entanto, é muito, muito raro vermos tratores derrubando barracos construídos de maneira igualmente irregular, com o agravante de que muitas vezes o dono do barraco não é sequer dono do terreno. Pela proporção, para cada mansão irregular que é demolida, deveriam ser removidos uns dez mil barracos.

Não há nenhum sinal de que o governo e os ambientalistas venham a apontar suas baterias para o verdadeiro vilão do meio-ambiente. Assim, não há outra alternativa para nós, brasileiros, a não ser continuar vivendo em nossas agradáveis eco-favelas.

Pro Brejo

Acabo de ver, ao vivo na TV, uma vaca (sim, uma vaca) ser vendida por R$ 1,12 milhão, em 14 parcelas de R$ 80 mil. Para comprar o singelo animal, um faxineiro teria de acumular todo o seu salário durante um terço de um milênio.

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Fala Mansa

Em mais uma canetada audaciosa, o Presidente Lula instituiu, no último dia 6, o Dia Nacional do Forró. De grande interesse para toda a nação, o dia será comemorado a cada 13 de Dezembro.

Sugiro transformar a data em feriado nacional.

Em respeito ao tema de elevada importância, peço ao leitor que pare de rir.

Amnésia

Outro dia estava preenchendo o contrato de adesão de uma videolocadora. Mesmo sem me atentar para o que estava fazendo, li todos os itens antes de assinar o documento e entregar à atendente. Fiquei lembrando depois de como pode ser possível que José Genoíno tenha assinado, sem sequer chegar a ler, os empréstimos do Banco Rural ao PT. Genoíno repetiu hoje que realmente assinou os documentos sem saber do que se tratavam, já que confiava plenamente no tesoureiro Delúbio Soares.

A tontice de Genoíno, alías, serve de objeto de estudo para a medicina. No começo, disse que não havia empréstimo algum. Quando a existência dos empréstimos foi comprovada, disse que não havia autorizado nada. Quando sua assinatura apareceu no documento, disse que era um só, e que não havia mais nenhum outro. Quando apareceram outros empréstimos, disse ter assinado sem saber do que se tratava. E quando o assessor de seu irmão foi encontrado com cem mil dólares na cueca, disse não ter idéia da procedência do dinheiro. Para completar, hoje disse também que o Mensalão nunca existiu. É de se esperar que no próximo depoimento vá dizer que foi influenciado ao erro pelo Papa-Léguas e pelo Coelhinho da Páscoa.

E eu perdendo meu sábado lendo contrato de videolocadora.

Em tempo, verdade seja dita: o que Genoíno está fazendo não chega exatamente a causar surpresa. Como se sabe, não é de hoje que ele é chegado a "sair da reta" e entregar antigos amigos.

Visionário

Nosso presidente é um homem de visão. Está na Guatemala em busca de oportunidades comerciais e do apoio ao ingresso do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Tenho uma curiosidade: após esta importante visita, quantos negócios de porte considerável o Brasil fechará com a Guatemala nos próximos, digamos, 5 anos?

Não posso reclamar muito, já que, agora, temos o importante apoio da Guatemala à nossa entrada no Conselho de Segurança. Agora, sim.

Fernando Henrique acreditava que liderança não se reivindica, mas se recebe. Lula, no entanto, homem inteligente que é, acredita que chegou a hora de o Brasil impor-se perante o mundo e agarrar de uma vez por todas a posição que tanto merece.

Será que algum brasileiro minimamente esclarecido crê que o Brasil realmente tenha alguma chance de (ou alguma razão para) ingressar no Conselho? Quanto já custou aos cofres públicos a peregrinação de Lula em busca do apoio a essa "candidatura" natimorta?

Lula sabe que não há chances... Ou não?

Castiço

"Não há acusação que não esteja prova". Foi com esta harmoniosa aplicação da língua portuguesa que o deputado Paulo Rocha, do PT do Pará, defendeu-se, em entrevista concedida hoje, das acusações de quebra de decoro. Bem, estou querendo muito. Se neste país nem o Presidente precisa dominar a língua, que dizer de um deputado?

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Auto-Censura

Estou me esforçando bastante e, como o leitor que acompanha o blog pode perceber, até agora consegui deixar de lado o assunto Marcos Valério, Mensalão e CPI. Não pretendo fazer chover onde já está encharcado.

Todo Castigo É Pouco

É impressionante a lamentável ponta de regozijo com a qual parte dos brasileiros encara tragédias em território americano. A última delas foi o furacão Katrina. Já ouvi dezenas de comentários do tipo "bem feito!" de pessoas de todas as classes sociais. Isso, fora o escárnio que se faz quando se menciona a oferta de ajuda de países como Venezuela e Cuba. Hoje, ouvi de um colega:

-- É, quem manda querer ser o xerife do mundo? Tomaram uma da natureza. Mas não tem jeito, vão continuar querendo mandar...

Veja bem, leitor, o inteligente raciocínio: os americanos querem mandar no mundo e a mãe natureza se vinga, dando a merecida punição aos tiranos. Outros dizem:

-- Hehe, o Fidel ofereceu ajuda! Disse que lá passou o furacão Ivan e não estragou quase nada!

É, tem gente que realmente crê que os lares cubanos são melhor construídos que os americanos. Até Lula ofereceu ajuda! Francamente meu presidente, como o senhor acha que vai ajudar? Mandando dinheiro? Ora, façam-me o favor.

Não dizem que o brasileiro é um dos povos mais solidários do planeta? Eu não estou vendo isso. Vejo, sim, um povo que faz pouco caso da desgraça, mesmo que alheia, capaz de tratar uma tragédia de enormes proporções com ironia e sarcasmo. Mães perdendo seus filhos, crianças com fome e idosos desamparados são desgraça em qualquer lugar do mundo, seja nos Estados Unidos, no Iraque, no Japão ou no beleléu.

Nada justifica que se trate tanto sofrimento com descaso ou com gracejos. Seja onde for, seja com quem for.

Precisava?

Um senhor faleceu hoje pela manhã atravessando a Av. Radial Oeste. Ele preferiu não utilizar a passarela que passava bem acima de sua cabeça.

Mediocridade

Se eu tivesse orgulho de ser brasileiro, teria vergonha de ter um compatriota como Rubens Barrichello. Não por ele ter se vendido e ter aceitado passivamente a posição de mero segundo piloto. Respeito a decisão dele. Sem nenhuma demagogia, é possível que, no lugar dele, eu aceitasse as mesmas condições.

O que me causa desconforto é o jeitinho de menino mimado que Rubens assume. É a sua total aversão a reconhecer sua inferioridade perante seu companheiro de equipe. É o fato de ele declarar que é apenas um brasileirinho e que Fórmula 1 é assim mesmo.

Engraçado. Nélson Piquet, Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna nunca tiveram esses problemas, apesar de serem tão brasileiros quanto Rubens. Rubens é segundo piloto porque é, tecnicamente, muito, mas muito inferior a Schumacher. Ponto. A imprensa brasileira fica cheia de rodeios para dizer o que acabei de dizer. Se Rubens disputasse 100 corridas contra Schumacher, com um mesmo carro, perderia 98. Epa, não é exatamente isso que vem acontecendo nos últimos anos?

É perfeitamente normal não ser o melhor. Eu, certamente, não sou o melhor no que faço. É absolutamente aceitável admitirmos que outra pessoa possa fazer algo com melhor qualidade, ou com maior eficiência, do que nós. Não há nenhum problema nisso para mim, mas o mesmo não se pode falar de Rubens.

Temos ouvido de Rubens, temporada após temporada, que dessa vez ele tem chances reais de ser campeão. Recentemente, foi divulgado que ele vai trocar a Ferrari pela BAR e, acredite se quiser, ele diz que desta vez terá reais chances de conseguir alguma coisa.

É isso que me faz perder parte de meu respeito por Barrichello. Ele acha que vai trocar a Ferrari pela BAR e vai ter resultados melhores. Eu não sei se ele realmente crê nisso, ou se está simplesmente ludibriando seus fãs (entre os quais, como já disse, definitivamente não me incluo). É por coisas assim que, hoje, torço até pro Takuma Sato, mas para Barrichello só torço contra.

Rubinho, não me leve a mal, mas entre os pilotos você é só mais um. Desista de querer estar entre os melhores, e aí, quem sabe, eu passe até a torcer por você.

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Nesse, não!

"Não foi nesse Lula que nós votamos!" é o que diz um histérico Calos Lupi na campanha de propaganda que o PDT tem empreendido. Bem, eu posso dizer isso. Você, Carlos Lupi, não.

Porque foi nesse Lula, Lupi, que vocês votaram. É impressionante a capacidade que o brasileiro tem de jogar seus votos na latrina e depois sair dizendo que não esperava esta ou aquela atitude daquele que foi agraciado com seu voto. Bem, eu não votei em Lula. Quem votou, no entanto, sabia exatamente o que estava comprando.

Prezado Carlos Lupi, não seja cínico. Você não sabia que Lula não tinha preparo para ser Presidente do Brasil? Não sabia que ele nunca tinha ocupado um cargo no poder executivo antes? Não sabia que ele se cercava de pessoas de conduta e caráter duvidosos? Não sabia que ele se acostumou a viver com fontes de renda escusas? O senhor, prezado Lupi, não se ocupou em analisar as administrações desastrosas que o PT vinha fazendo em esferas municipais e estaduais?

Atrevo-me a dizer, senhor Lupi, que estamos no lucro. Porque o Lula em quem o senhor e tantos outros brasileiros votaram não era a favor de pagar os juros da dívida externa. Não era a favor dos juros altos. Não era a favor do salário mínimo no patamar em que está. Não era a favor do comedimento na gastança pública. Não era a favor das privatizações.

O Lula em quem vocês votaram era uma verdadeira tragédia anunciada. Qualquer coisa em que ele venha a se transformar abaixo disso é lucro para o país.

Enfim, eu e Regina Duarte ficamos felizes em ver que o PT está mostrando sua verdadeira face: a da incompetência crassa em todas as esferas, a da falta de coerência e a do crime. Mas o brasileiro é otimista. É necessário muito, muito mais do que isso para que as pessoas deixem de votar nos que hoje nos governam. Não é mesmo, Carlos Lupi?

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Povo Letrado

O mercado editorial brasileiro é realmente fabuloso, e o livro mais vendido tem sido o novo novo novo lançamento da série Harry Potter. Não, antes que o leitor feche a janela do navegador vou logo dizendo que não tenho nada contra o personagem de J. K. Rowling. Não pretendo vir a ler as histórias do jovem Harry, embora, com toda a minha ignorância e com o perdão do leitor, eu não entenda a comoção que estes livros aparentemente dedicados ao público infanto-juvenil causam em pessoas de todas as idades.

Mas não é o fato de Harry Potter liderar as vendas que me espanta. O leitor brasileiro sempre gostou de todo tipo de bobagens, e perto delas talvez os livros de Harry Potter sejam candidatos ao prêmio Nobel. O que me causa admiração é o fato de que o livro que mais tem vendido no Brasil está em inglês. Sim, em inglês.

Fico orgulhoso de pertencer a um povo que já nasce falando duas línguas. Além de nascer sabendo jogar futebol, o brasileiro nasce sabendo falar inglês.

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Metástase

Analisando o post da semana passada, que descreveu a história do assassinato de um americano pela VPR, percebi que seria interessante aprofundar um pouco mais o assunto.

No post inaugural do Temporama, eu disse que a liberdade de expressão foi uma das mais importantes conquistas em nosso país nos últimos tempos. Deve ser horrível viver em um país onde não haja liberdade e onde os cidadãos paguem com a vida por dizerem o que pensam. A ditadura foi um dos maiores males que já assolaram este país, e felizmente ela, por enquanto, foi embora.

Na época da ditadura havia vários grupos, naturalmente clandestinos, de resistência ao regime. Muita gente participava da resistência. Havia gente que defendia seus ideais com seriedade e civilidade, como -- apenas para citar alguns exemplos -- Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Ulysses Guimarães. E havia também marginais, que lutavam contra a ditadura praticando assaltos, assassinando e sequestrando pessoas -- às vezes vinculadas ao regime, às vezes não --, e praticando atos de vandalismo e terrorismo. Notadamente, muitos ex-marginais integrantes deste segundo grupo estão vinculados ao partido do governo federal. Citarei apenas alguns poucos: Dilma Roussef, Carlos Minc, Diógenes do PT, José Dirceu (aquele que, na recente cerimônia da posse de Dilma, chamou-a de "minha companheira de armas". Muito comovente, sobretudo com os baixíssimos índices de violência praticada com armas em nosso país. Mas isso é outra história).

Entre os militares e as chamadas "forças de esquerda", é difícil dizer qual dos grupos que, se detivesse o poder, causaria mais malefícios ao país a longo prazo. É uma questão que eu realmente não saberia responder. Não sei quem seria pior.

Uma coisa, no entanto, é fato: os militares não governam mais o país. É até possível que voltem a governar algum dia, mas hoje a idéia não preocupa. A esquerda, ao contrário, ainda tenta conduzir o Brasil.

A ditadura já foi; a esquerda é o câncer que tenta tomar conta do país. Temo que sua espetacular incompetência não seja suficiente para que o criterioso eleitor brasileiro deixe de despejar nela seus votos.

Viva o Rei!

Ainda sobre o mesmo assunto: o brasileiro demonstrou que não estava preparado para uma democracia. Não é culpa somente do povo: desde Getúlio Vargas até João Figueiredo, foram anos e anos submetendo a população à mais absoluta privação compulsória de raciocínio. Certa vez, Pelé disse que "brasileiro não sabe votar". Por ter dito isso, até hoje é achincalhado pela imprensa e pela opinião pública. É bem verdade que, fora de campo, Pelé nunca demonstrou a genialidade que exibia dentro das quatro linhas. Entretanto, pelo menos nesse caso, Pelé tem razão. O brasileiro pondera mais para escolher o número que vai apostar no bicho do que o candidato em quem vai votar. Tem brasileiro que troca voto por camiseta, dinheiro e até por prato de comida. Para cada brasileiro que passa quatro meses decidindo cuidadosamente em quem vai votar, existem dez que votam no candidato que deu santinho ou que aparece na TV dando prato de sopa aos mendigos.

A democracia funciona maravilhosamente bem em países onde a população é esclarecida e bem informada. Não é à toa que as ditaduras se baseiem na desinformação. É difícil admitir, mas temos de quebrar o tabu: está claro que nem todos os brasileiros têm condições de votar. Devemos encarar de frente o fato, sem hipocrisia. Antes que comecem as reações apaixonadas, não estou dizendo que quem vota na esquerda não pode votar. Estou dizendo, sim, que existem pessoas que, votem eles em A ou B ou C, distribuem seus votos sem o mínimo de critério ou avaliação.

Se o voto não fosse obrigatório, eliminaríamos de imediato aqueles que preferem curtir o feriado a votar, ou que votam em qualquer um só para poder se livrar da obrigação. Sei que teríamos dirigentes sem representatividade, muitas vezes eleitos com apenas 10 ou 15% dos votos possíveis, mas antes assim do que o atual estado das coisas. Se um cidadão (cidadão?) de Bom Jesus do Escambau do Norte, analfabeto, deixasse que o paulistano do Morumbi escolhesse por ele o presidente do país, seria melhor para ambos: o paulistano e o de Bom Jesus. Os esclarecidos tendem a escolher canditados melhores para governar a todos, esclarecidos ou não.

Se o leitor discordar, por favor não esculhambe o blog: prefiro que esculhambe o Pelé. Ele já está acostumado.

Orgulho de que?

Sou francamente favorável ao casamento (sem adoção de crianças) entre pessoas do mesmo sexo. Acredito que todos devam ter o direito de conduzir sua vida privada da maneira que lhes convier.

A chamada Parada do Orgulho Gay (não sei se o nome é exatamente esse), no entanto, transforma a luta pelos direitos dos homossexuais numa grande comédia pastelão. Copacabana fica parecendo um zoológico a céu aberto. É uma aberração. Não vejo como um homem fantasiado de galinha possa contribuir para a nobre luta dos homossexuais pelo reconhecimento de seus direitos.

O jornal O GLOBO publicou foto na primeira página da última segunda feira que mostrava dois homens que se beijavam em público para analisar a reação das pessoas ao fato. Duas crianças, com os olhos arregalados, observavam.

Lamento ter de ser tão acertivo, mas a verdade é que, enquanto não escolhe de livre e espontânea vontade seu caminho, nenhum cidadão é homossexual. Por natureza, todas as pessoas são heterossexuais até que algo, seja o que for, altere o desenrolar natural das coisas.

Quando os homossexuais usam seu comportamento com a intenção deliberada de chocar, principalmente a crianças e idosos, estão na verdade agredindo. Estão querendo que a sociedade admita na marra que gostar de pessoas do mesmo sexo seja natural.

Não, natural não é. O natural é que as pessoas se relacionem com pessoas do sexo oposto. Se a natureza tivesse projetado o ser humano para ser homossexual, a humanidade simplesmente não existiria. Eu só estou aqui escrevendo, e você aí, lendo, porque homens gostam de mulheres e vice-versa.

Não se confunda: acredito que a sociedade esteja caminhando para uma tolerência saudável, em que as pessoas se respeitem mutuamente independentemente de qualquer opção que possam exercer em suas vidas. Sem querer me valer do clichê, creio profundamente que as pessoas não devem sofrer distinção em função de raça, sexo, religião, classe social ou opção sexual. Tenho grandes amigos e amigas negros, brancos, homossexuais, judeus, espíritas, ateus, ricos e pobres. Distinguir as pessoas por qualquer desses fatores é, no mínimo, um sinal de desmesurada ignorância. Não tenho nada contra ou a favor dos homossexuais. Mas não posso concordar com a atitude de agredir.

O nome do evento para homenagear os homossexuais e ajudar a reivindicar o reconhecimento público dos seus direitos não deveria ser "Parada do Orgulho...". O próprio nome já configura beligerância. Ser gay não é motivo de orgulho, assim como ser branco também não é. Ser gay é uma opção de cada um, e pronto.

Se eu fosse homossexual, a última coisa que faria seria comparecer à Parada do Orgulho Gay.

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Yo No Creo en Brujas, Pero...

Eu sou corrupto.

Você, que neste momento está lendo este blog, também. Pelo menos, é esta a opinião de nosso presidente Lula. Soberbo, com a arrogância típica da totalitária esquerda brasileira, ele declarou ontem que "ninguém tem mais autoridade moral e ética para combater a corrupção" do que ele.

Se Lula perdoar minha petulância, gostaria de saber em que fatos se baseou para concluir que é a única pessoa honesta desse país. Será mesmo que, dentre nós, brasileiros, não haja ninguém que seja honesto, impoluto e correto, tal como nosso presidente se autoproclama?

Desculpe, Sr. Presidente, mas, infelizmente, é possível que o senhor esteja errado. Talvez haja alguém entre nós que, quem sabe, tenha mais autoridade do que o senhor para opor-se a toda a devassidão que tem prevalecido em todas as esferas de seu governo.

Talvez eles não façam parte de seu convívio, Sr. Presidente, mas acredite: conheço muitos brasileiros honestos. Conheço brasileiros de todas as classes sociais que vivem honradamente com o dinheiro oriundo de seu próprio trabalho, ao contrário do senhor, que por décadas viveu sem trabalhar, com renda proveniente de fontes escusas.

Sei que pode parecer inconcebível aos seus olhos, Presidente Lula, mas conheço pessoas que pagam seus impostos e cumprem com todas as suas obrigações para com o Estado, mesmo sabendo que grande parte dos tributos que pagam é usada para sustentar o seu partido, seja através de meios ilícitos ou do dízimo que seu partido cobra de todos os afiliados que ocupam cargos públicos.

Compreendo que, sendo o Senhor um ex-sindicalista que tornou-se político de esquerda, talvez não esteja ainda perfeitamente acostumado a partilhar do convívio de pessoas que possuam tanta honestidade quanto o senhor diz ter.

Pessoas corretas, Sr. Presidente, são como as bruxas: o Senhor pode nunca tê-las visto, mas acredite: elas existem.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Pula a Fogueira, Iaiá!



Estamos na época das festas juninas. Nunca gostei de festas juninas. Os balões queimam nossas matas, os fogos queimam as nossas mãos e a comida é geralmente feita "nas coxas" e de baixa qualidade. Isso sem contar um monte de gente se enfeiando com roupa rasgada e pintando a cara, e participando de gincanas grotescas. Nosso presidente, no entanto, gosta muito. No ano de sua posse foi realizada, na Granja do Torto, uma grande festa junina. Na época, o fato foi noticiado em vários jornais. O que a imprensa, então chapa branca, daquelas lavadas com OMO Progress, não mencionou foi a total e absoluta manguaça pela qual passou o nosso presidente cachaceiro. As fotos mostram o Presidente da República Federativa do Brasil, décima economia mundial, fantasiado de caipira, suado, com os cabelos desgrenhados e os olhos esbugalhados. Estou postando apenas uma delas, na qual nosso ilustre presidente aparece ao lado de nossa distinta primeira-dama, Dona Marisa.

É, acho que finalmente o Brasil tem o presidente que merece.

Desistir, Jamais

Dona Gertrudes é uma senhora de classe média-baixa que vive no subúrbio de uma grande cidade brasileira. Levando uma vida esforçada, ela sustenta, sozinha, seus seis filhos. Para isso, conta com a minguada remuneração que ganha vendendo cosméticos de segunda categoria para as suas amigas e conhecidas. Dona Gertrudes, no entanto, não reclama: ela sabe que a vida poderia ser pior.

Dona Gertrudes ainda encontra tempo para comparecer aos eventos promovidos pelas Jovens Senhoras Unidas para o Auxílio dos Necessitados, grupo assistencial ao qual pertence. O grupo inteiro se reúne a cada ano na casa de um dos membros para confraternizar e comemorar mais um ano em atividade. Naquele ano, Dona Gertrudes decidira que a festa seria em sua casa. Outras senhoras do grupo haviam oferecido suas residências, algumas delas verdadeiras mansões com vários empregados e grandes jardins. Ainda assim, naquele ano Dona Gertrudes não arredava pé. "Minha casa é simples, mas vai ser divertido!" dizia Dona Gertrudes às amigas. Dona Gertrudes tanto quis que conseguiu. Foi escolhida para sediar o evento daquele ano.

Pela tradição, o evento é patrocinado pela dona da casa onde ele acontece, e Dona Gertrudes sabia disso. Ela havia feito e refeito todas as contas e todos os planos, e concluiu que, com algum esforço, teria todo o dinheiro suficiente para bancar a reunião.

Os meses foram passando, e antes que Dona Gertrudes se desse conta a semana do evento havia chegado. Certo dia, ela pegou todo o dinheiro que havia poupado e foi ao supermercado fazer as compras para o grande evento.

Quando estava passando as compras pelo caixa, Dona Gertrudes viu que o dinheiro que ela havia guardado com tanto esforço não chegava a ser suficiente para pagar sequer a metade do valor das compras.

Dona Gertrudes não sabia o que fazer. A festa estava agendada, e os convidados já estavam se preparando. Não havia mais tempo de desistir e transferir a festa para a casa de outra pessoa do grupo. Dona Gertrudes caiu em desespero.

Contei essa triste história para realizar uma analogia com a candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Panamericanos. O Comitê Olímpico Brasileiro, na figura de seu presidente -- praticamente já um monarca -- Carlos Arthur Nuzman, fez todas as contas. Junto com a prefeitura, o COB concluiu que, com esforço, conseguiria quase a totalidade dos recursos para os jogos. A prefeitura daria uma parte, o governo do estado daria outra parte, o governo federal daria a sua e a iniciativa privada idem. A planilha de custos e recursos do evento foi devidamente demonstrada para o comitê que escolheu a cidade-sede.

Nesta semana, no entanto, o presidente-monarca do COB foi à câmara dos vereadores explicar que, infelizmente, os cálculos estavam errados. Faltando apenas dois anos para o evento, e com a maioria das obras ainda por iniciar, a nova previsão orçamentária é nada mais, nada menos que o dobro (sim, o dobro) da inicial. Para piorar, estão "aparecendo" canos da CEDAE e outras coisas mais em locais que deveriam ser preparados para os jogos. Ainda não se sabe de onde virá a verba complementar para os jogos, mas o fato é que Carlos Arthur Nuzman disse que é "natural" ocorrerem coisas desse tipo.

Sim, é natural. Aqui no Brasil, conconcordo, é natural. Mais que isso: é de se esperar. E pensar que o Rio quer sediar uma Olimpíada!

A verdade é que nem o Rio nem qualquer outra cidade brasileira tem condições de se candidatar a sediar os Jogos Panamericanos. Na esfera esportiva internacional podemos, no máximo, sediar copas de natação ou campeonatos de handebol. Qualquer coisa muito além disso nos faz passar o papel ridículo que estamos passando. O brasileiro é assim mesmo: não tem competência para sequer manter suas crianças longe das ruas, mas acha que pode sediar grandes competições internacionais. Afinal somos brasileiros, e brasileiro, como se diz, não desiste nunca. Vamos fazer os mais capengas Jogos Panamericanos da história, e depois vamos querer fazer Olimpíada.

É isso aí, Brasil. O Pan é nosso. Agora só faltam a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O presidente-monarca do nosso Comitê Olímpico, Carlos Arthur Nuzman, mostra que é um homem sensato, competente e responsável.

Vira-Casaca

Há poucos meses passei uns 10 dias na Tunísia. Ontem, assistindo na TV o jogo Argentina x Tunísia pela Copa das Confederações, flagrei-me, pela primeira vez na vida, torcendo fervorosamente pelos nossos nobres co-irmãos portenhos. O jogo terminou Argentina 2 x 1 Tunísia. Tomara que eles sejam rapidamente desclassificados e voltem logo para casa, porque toda vez que escuto a palavra "Tunísia" sinto calafrios.

Dá-lhe, Argentina!

Balanço da Primeira Semana

O blog agradece pelo grande número de acessos da sua primeira semana. A divulgação mal começou, e a quantidade de acessos e page-views superou as mais otimistas expectativas. Obrigado a cada um de vocês.

Aparentemente o termo que usei, "brasileiro médio", não foi bem interpretado por alguns, e rendeu ao blog alguns comentários "esculhambativos". Fui até obrigado a remover alguns comentários que continham palavrões e ofensas. Para evitar mais melindres, substituí o termo "médio" por "típico". Em todo caso, lembro que, se você está acompanhando esse blog é porque tem acesso à internet, sabe ler e ainda por cima se interessa em pensar a realidade que nos cerca. Lamento, mas você não pode nem de longe se autodenominar um brasileiro médio.

Mais uma vez, obrigado a todos os que acessaram o blog e fizeram seus comentários. Elogiem, critiquem, continuem assim. O blog é de todos.

quinta-feira, 9 de junho de 2005

O Fim do Décimo-Terceiro

Ontem recebi por e-mail a notícia do fim do décimo-terceiro salário. A mensagem, em tom de revolta, continha as fotos dos deputados que supostamente votaram pelo fim do benefício, e conclamava o destinatário (no caso, eu) a encaminhá-la para outras pessoas para divulgar a "pouca-vergonha".

Imaginando como alguém pudesse acreditar, mesmo que com uma pontinha de dúvida, que o décimo-terceiro pudesse ser varrido do mapa, de uma hora para outra, sem nenhuma divulgação por parte da imprensa falada e escrita, deletei a mensagem. Mas nem tudo foi em vão: o episódio serviu para, pelo menos, motivar essa postagem.

O que mais prejudica o trabalhador no Brasil é o excesso de direitos trabalhistas. Na verdade, não existe maneira mais eficaz para inibir o emprego do que criar direitos trabalhistas. A quantidade absurda de direitos que o trabalhador possui aliada ao excesso de tributos gera uma daquelas poucas equações perversas em que todos saem perdendo: o governo, o empresário e, sobretudo, o trabalhador.

Não é por opção que cada vez mais pessoas se vêem trabalhando em meio à mais absoluta informalidade, longe de qualquer amparo legal, sem contribuir para a previdência e sem virtualmente nenhum direito. A tendência para longo prazo, em permanecendo a conjuntura atual, é de que a legislação trabalhista abranja um número cada vez menor e menos significativo de trabalhadores, e caduque. No fim das contas, o país inteiro se tornaria uma terra selvagem e sem lei, como uma espécie de grande camelódromo de bens e serviços.

Depois do excesso de direitos e encargos, o que mais prejudica o trabalhador no país são os sindicatos que o deveriam prestar assistência. O trabalhador contribui compulsoriamente para um sindicato geralmente incompetente e corrupto, dirigido por pessoas que estão menos interessadas em trabalho e mais interessadas em politicagem e locupletação. Estes sindicatos tentam passar para o trabalhador uma idéia falsa de eterna "luta" de classes entre trabalhadores e patrões, onde os primeiros são sempre as vítimas dos segundos.

Quando a lei dificulta a demissão de um trabalhador, inibe-se, em igual proporção, a contratação. Se não se depositasse uma carga tão pesada de encargos e deveres nas costas do empresário, haveria milhões de empregos a mais no país. Haveria mais famílias com renda e vivendo com dignidade, mais gente gastando, aquecendo a economia, gerando arrecadação para o governo e, sobretudo, criando mais empregos.

Somente com uma reforma ampla e generalizada nas relações de trabalho seria possível interromper o círculo vicioso que produz a equação perversa mencionada anteriormente, e transformá-la em uma equação benigna na qual todos os setores da sociedade só teriam a ganhar.

Nas próximas eleições vou procurar, quase sem esperanças, um candidato que defenda essa pouca-vergonha.


 
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